O Instituto Çarê convidou as artistas a compartilhar um relato sobre sua experiência. Dessa forma, outras pessoas podem conhecer o universo da residência artística em conexão com a Mata Atlântica de Altitude na Serra da Mantiqueira. Essa foi a 1ª edição de uma experiência imersiva, realizada no 2º semestre de 2025.
A residência artística começa antes mesmo da primeira caminhada ou da primeira anotação. Ela brota quando alguém decide se deslocar e se abrir para um novo território. É então que a artista se permite ser atravessada por ele.
Durante a estadia, a artista visual e educadora transdisciplinar Laíza Ferreira se aproximou da Mata Atlântica de forma singular. Para ela, a floresta não era apenas paisagem ou objeto de estudo, mas um campo vivo de relações. Por isso, pelas caminhadas, conversas, observações botânicas e encontros com moradores do território, sua pesquisa foi se desdobrando. Dessa forma, o conhecimento científico, a memória coletiva percebida em processos de escuta do território e imaginação se entrelaçaram de forma orgânica.
Um dos momentos mais marcantes do processo surgiu ao observar a flora local. Nesse instante, Laíza teve um insight filosófico: lembrou da poética da relação e da opacidade de Édouard Glissant. A partir daí, começou a imaginar como essas ideias poderiam se transformar em um processo de autoficção, reivindicando suas narrativas com as plantas.
Como aponta Oliveira: “A opacidade é entendida como a resistência à transparência e à redução do outro, sendo essencial para estabelecer relações respeitosas entre culturas e indivíduos. Ela organiza sua análise em três eixos principais: opacidade como compreensão limitada e não invasiva, opacidade como direito à diferença e opacidade como inesgotabilidade de interpretações.”
Com base nessa perspectiva, a investigação da artista passou a enxergar as plantas de outra forma. Mais do que espécies catalogáveis, elas se tornaram presenças que guardam histórias, memórias e modos de existência compartilhados. Assim, entre herbários, cianotipias, conversas em quintais quilombolas e percursos pela floresta, a pesquisa se tornou um exercício de imaginação, central a toda residência artística que queira escutar um território com profundidade.
O texto da Laíza Ferreira traz o depoimento da própria artista sobre esse processo. Trata-se, portanto, de uma travessia por encontros, perguntas e descobertas que surgiram ao longo dessa residência artística no Instituto Çarê. Uma narrativa que convida o leitor a desacelerar o olhar e a perceber a floresta como uma rede viva de alianças entre diferentes formas de vida.

O Instituto Çarê identifica, preserva e amplia o acesso a acervos, apoia a pesquisa, fomenta produções artísticas e musicais, e promove ações e reflexões sobre educação e convívio.
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