Iorubahia
Letra da Cidade e Fundação Pierre Verger lançam livro
Iorubahia
Letra da Cidade e Fundação Pierre Verger lançam livro
Sobre
Parceria entre o Instituto Çarê e a Fundação Pierre Verger, livro retoma o acervo da editora baiana Corrupio, pioneira em publicações sobre a presença negra no Brasil
Iorubahia _ Escritos raros sobre a cultura iorubá e as relações entre Brasil e golfo do Benim (Letra da Cidade/Fundação Pierre Verger, 2026) reúne doze textos escritos por Pierre Fatumbi Verger entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1980, boa parte nunca publicados em português. Acompanhando o mergulho que o etnógrafo fez na cultura iorubá, tanto no Benim e na Nigéria, onde viveu parte desse período, quanto nos contextos diaspóricos, como Bahia e Cuba, os ensaios abordam temas que o acompanharam por décadas: a história das relações transatlânticas entre o golfo do Benim e o Brasil; questões relativas à religião dos orixás, como o transe, as plantas litúrgicas e o sistema de divinação Ifá; e características da cultura iorubá, como as tradições pautadas na oralidade.
No período em que os textos foram escritos, vivendo entre Salvador e a Nigéria, Verger debruçou-se sobre os principais arquivos coloniais europeus e brasileiros, tornou-se doutor em estudos africanos pela Escola de Altos Estudos, em Paris, foi pesquisador associado da Universidade de Ibadan e professor visitante da Universidade de Ilê-Ifé, e percorreu cidades e vilas do interior do país iorubá para presenciar rituais e coletar relatos orais de babalaôs. “Os textos reunidos em Iorubahia representam faces relevantes da trajetória multitemática e multiespacial do pesquisador Pierre Fatumbi Verger, que ele manteve em processo de construção constante, além da carreira do fotógrafo já consagrado”, diz a organizadora Ângela Lühning, pesquisadora e diretora da Fundação Pierre Verger.
O conjunto final dos textos, boa parte deles apresentados originalmente como palestras em encontros na África Ocidental e na Europa, organiza-se em torno de três eixos temáticos. A primeira parte, “Aspectos históricos das relações transatlânticas”, dialoga de forma direta com o tema da tese de doutoramento de Verger, defendida em 1966, e publicada no Brasil em 2021 com o título Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos os Santos, dos séculos XVII a XIX. A parte 2, “Religião iorubá: fundamentos e diáspora”, aborda o papel da religião dos orixás na Nigéria e no Brasil e o fenômeno do transe religioso. Na seção final, “Cultura, conhecimento e oralidade iorubá”, Verger apresenta as relações entre conhecimentos transmitidos oralmente, plantas litúrgicas e o sistema de divinação de Ifá, complexo temático que ele aprofundaria, décadas depois, em Ewé. O uso das plantas na sociedade iorubá.
Convidado a olhar para a contribuição de Verger aos estudos africanos e afro-brasileiros desde uma perspectiva contemporânea, o pesquisador, curador e multiartista Tiganá Santana ressalta, no posfácio do livro, o fato de o etnógrafo não hierarquizar a importância do que é africano-iorubá e afro-brasileiro. Antes, afirma, “Verger convoca que se esteja, seriamente, lá (em algum locus existencial do continente africano) e que se redimensione, por conseguinte, o que é nascer/viver cá. Em última análise, que se repense o ‘lá’ e o ‘cá’. Nada é simples em toda essa história; muito menos deve ser a nossa inserção nela, a nossa recepção dela.”
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Iorubahia é uma publicação do Instituto Çarê, organização cultural sem fins lucrativos que se dedica a preservar e a fomentar manifestações culturais brasileiras de relevo, em parceria com a Fundação Pierre Verger. Com textos introdutórios e notas de Ângela Lühning, projeto gráfico de Oga Mendonça e revisão do iorubá de Félix Ayoh’Omidire, a publicação nasceu do processamento do acervo da editora soteropolitana Corrupio, adquirido pelo Çarê em 2023. Fruto do gesto visionário de um grupo de mulheres, tendo à frente a fotógrafa Arlete Soares, a Corrupio foi criada em 1979 para editar a obra de Verger. Ao longo de quarenta anos, construiu um catálogo que celebra a presença negra na formação da nossa cultura e ajuda a elucidar as relações históricas que fundam nossas desigualdades, tocando, assim, em um problema que é chave para o Brasil.
O autor
Pierre Fatumbi Verger (Paris, 1902 – Salvador, 1996) iniciou sua trajetória profissional nos anos 1930, tornando-se conhecido como fotógrafo viajante. Em 1946, fixou residência em Salvador, onde trabalhou inicialmente como repórter fotográfico para a revista O Cruzeiro. Mais tarde, enveredou pela pesquisa documental e de campo nas áreas de antropologia, história, conhecimentos orais e botânica, conforme seu interesse se ampliava para questões históricas e culturais, e as tradições religiosas de matriz africana. Em viagens constantes à África Ocidental, e em um período de doze anos vivendo na Nigéria, fez um mergulho pessoal na cultura iorubá, tendo sido iniciado como babalaô em 1953. Em 1966, tornou-se doutor em estudos africanos pela École Pratique des Hautes Études (EPHE), em Paris. É autor de obras referenciais para o estudo dos trânsitos culturais atlânticos e da presença iorubá na diáspora, como Orixás. Os deuses iorubás na África e no Novo Mundo e Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos os Santos, dos séculos XVII a XIX.
A organizadora
Angela Lühning começou a trabalhar com Pierre Verger em 1988, momento da criação da Fundação Pierre Verger, em Salvador, e segue vinculada à instituição, como diretora e coordenadora do Espaço Cultural Pierre Verger. Realizou diversas pesquisas sobre Verger e sua atuação, que resultaram em uma série de artigos e outras publicações. Organizou os livros Pierre Verger: repórter fotográfico (2004) e Verger-Bastide: Dimensões de uma amizade (2002), ambos publicados pela Bertrand Brasil. É professora titular aposentada da Escola de Música da UFBA, tendo atuado na área de etnomusicologia da instituição de 1990 a 2025. Suas pesquisas abordam música, memória, história e oralidade na cultura afro-brasileira, além de experiências de educação social em bairros populares de Salvador.
Os editores
Letra da Cidade (letradacidade@institutocare.org.br) é o selo editorial dos institutos Acaia e Çarê, duas organizações sem fins lucrativos sediadas em São Paulo e voltadas a promover a valorização e o acesso à educação e à cultura. Os livros produzidos pelo selo cobrem as diversas áreas de interesse dos dois institutos, como educação, cultura jovem periférica, música e artes visuais. Pensado como um centro cultural aberto à cidade, o Instituto Çarê tem como missões salvaguardar e difundir obras que marcaram pontos de inflexão na história da cultura brasileira, e promover manifestações artísticas novas e relevantes, que passam ao largo do radar do mercado cultural. A Fundação Pierre Verger (https://pierreverger.org) é uma instituição sem fins lucrativos criada em 1988 e sediada na casa onde Pierre Verger viveu, em Engenho Velho de Brotas, Salvador. Tem como missão preservar o acervo e a memória de Verger, além de propor atividades culturais e socioeducativas para a comunidade local.
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Iorubahia _ Escritos raros sobre a cutura iorubá e as relações entre Brasil e golfo do Benim
Pierre Fatumbi Verger
Ângela Lühning (org.)
Letra da Cidade/Fundação Pierre Verger, 2026
ISBN 978-65-998062-6-1
320 páginas
R$ 120