Iorubahia
organização Ângela Lühning
posfácio Tiganá Santana
editora Letra da Cidade/Instituto Carê/Fundação Pierre Verger
Coletânea produzida em parceria com a Fundação Pierre Verger, Iorubahia reúne doze textos escritos pelo etnógrafo entre os anos 1950 e 1980, boa parte inéditos em português, sobre as relações históricas entre o Brasil e o golfo do Benim, a cultura iorubá e a religião dos orixás. Com organização de Ângela Lühning, especialista na obra de Verger, o livro acompanha o mergulho que o etnógrafo fez na cultura iorubá no período, lançando-se às pesquisas de campo tanto no Benim e na Nigéria, onde chegou a viver por doze anos, quanto nos contextos diaspóricos, como Bahia e Cuba.
Iorubahia nasce do processamento de manuscritos encontrados no acervo da editora soteropolitana Corrupio – a primeira a publicar a obra de Verger no Brasil –, que pertence ao Instituto Çarê desde 2019. Muitos foram escritos para palestras que Verger proferiu no Brasil e na África Ocidental nesses anos, em que tornou-se doutor em estudos africanos pela Escola Prática de Altos Estudos, em Paris, foi pesquisador das universidades de Ibadan e Ilê-Ifé, e percorreu cidades e vilas do interior do país iorubá para presenciar rituais e coletar relatos orais de babalaôs.
Tratando de aspectos da história colonial e da religião iorubá, como o transe, o uso litúrgico das plantas e o sistema de divinação Ifá, os textos de Iorubahia representam, segundo Ângela Lühning, “faces relevantes da trajetória multitemática e multiespacial do pesquisador Pierre Fatumbi Verger, que ele manteve em processo de construção constante, além da carreira do fotógrafo já consagrado”.
Convidado a olhar para a contribuição de Verger aos estudos africanos e afro-brasileiros desde uma perspectiva contemporânea, o pesquisador, curador e multiartista Tiganá Santana ressalta, em seu posfácio ao livro, o fato de o etnógrafo não hierarquizar a importância do que é africano-iorubá e afro-brasileiro. Antes, afirma, “Verger convoca que se esteja, seriamente, lá (em algum locus existencial do continente africano) e que se redimensione, por conseguinte, o que é nascer/viver cá. Em última análise, que se repense o ‘lá’ e o ‘cá’. Nada é simples em toda essa história; muito menos deve ser a nossa inserção nela, a nossa recepção dela.”
O autor
Pierre Fatumbi Verger (Paris, 1902 – Salvador, 1996) iniciou sua trajetória profissional nos anos 1930, tornando-se conhecido como fotógrafo viajante. Em 1946, fixou residência em Salvador, onde trabalhou inicialmente como repórter fotográfico para a revista O Cruzeiro. Mais tarde, enveredou pela pesquisa documental e de campo nas áreas de antropologia, história, conhecimentos orais e botânica, conforme seu interesse se ampliava para questões históricas e culturais, e as tradições religiosas de matriz africana. Em 1966, tornou-se doutor em estudos africanos pela École Pratique des Hautes Études (EPHE), em Paris. É autor de obras referenciais para o estudo dos trânsitos culturais atlânticos e da presença iorubá na diáspora, como Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos os Santos, dos séculos XVII a XIX.