Memória e verdade:
33 anos do massacre no Carandiru a partir de acervos documentais
Sobre
A exposição Memória e verdade: 33 anos do massacre no Carandiru a partir de acervos documentais, produzida pelo grupo Educadores Memórias Carandiru, propõe uma reflexão crítica e necessária sobre o sistema prisional brasileiro, a política de encarceramento em massa e o racismo que atravessa a história das instituições penais no país. Ao revisitar o massacre ocorrido na Casa de Detenção de São Paulo, em 1992 — um dos mais graves episódios de violência de Estado da história recente do Brasil —, a mostra reafirma a centralidade da memória como ferramenta de luta pela verdade, justiça e reparação.
A exposição enfrenta os persistentes processos de apagamento, silenciamento e desumanização que marcam as narrativas oficiais sobre o massacre e sobre a população privada de liberdade, majoritariamente negra, pobre e periférica. O encarceramento em massa é apresentado não como fenômeno isolado, mas como expressão de um projeto histórico de controle social e racial, sustentado por políticas de segurança pública violentas e seletivas, que naturalizam a morte, a exclusão e a violação sistemática de direitos.
A mostra percorre o cotidiano da existência sob custódia, revelando linguagens, práticas e modos de vida forjados no interior das prisões paulistas. Estão presentes o vocabulário específico do cárcere, as correspondências trocadas com familiares, os registros da espera, da ausência e da resistência, além do engenho artesanal da maria-louca, símbolo da criatividade e da sobrevivência em contextos extremos de privação. Ao lançar luz sobre essas experiências, a exposição afirma a humanidade, a subjetividade e a dignidade das pessoas encarceradas, confrontando imaginários sociais baseados na criminalização, na invisibilidade e na negação de direitos.
Ao mobilizar acervos documentais como espaços vivos de disputa de sentido, a exposição reivindica a memória como prática política. Memória que não se limita à preservação do passado, mas que atua no presente para tensionar narrativas hegemônicas, denunciar a violência de Estado e sustentar processos coletivos de conscientização, educação em direitos humanos e transformação social.
Programa de Residência Artística Çarê | IEB-USP
O Programa de Residência Artística do Instituto Çarê em parceria com o IEB-USP tem como objetivo contribuir para a democratização do acesso aos acervos documentais e às instituições culturais e de ensino, promovendo a incorporação e o protagonismo de públicos historicamente excluídos desses espaços.
O Programa valoriza a diversidade de olhares, saberes e experiências na reflexão sobre cultura, memória e patrimônio histórico-cultural brasileiros, privilegiando abordagens não hegemônicas e não acadêmico-tradicionais. Ao reconhecer os acervos como territórios de disputa simbólica e política, a residência estimula leituras críticas que evidenciam silenciamentos, ausências e desigualdades estruturais presentes nos processos de preservação, organização e difusão da memória.
Desde 2024, o Instituto Çarê e o IEB-USP vêm recebendo coletivos de artistas e agentes culturais que desenvolvem pesquisas e práticas artísticas a partir dos acervos das duas instituições. Nesse processo, estabelece-se um movimento de dupla ativação: ao mesmo tempo em que os residentes se apropriam dos documentos pesquisados, também dão novos sentidos a eles, iluminando registros historicamente marginalizados e contribuindo para a ressignificação das políticas de memória.
A exposição Memória e verdade: 33 anos do massacre no Carandiru a partir de acervos documentais é resultado desse processo de residência e reafirma o compromisso do Programa com práticas culturais comprometidas com os direitos humanos, a justiça social e a construção de narrativas plurais sobre a história brasileira.
Coletivo Educadores Memórias Carandiru: lembrar para não repetir
O Coletivo Educadores Memórias Carandiru é uma iniciativa independente formada por egressos do sistema carcerário, dedicada à preservação, difusão e problematização da memória da antiga Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Suas ações educativas e formativas promovem uma reflexão crítica sobre o encarceramento em massa, a violência de Estado e as políticas penais no Brasil, com especial atenção ao Massacre do Carandiru, ocorrido em 2 de outubro de 1992, quando uma operação da Polícia Militar no Pavilhão 9 resultou oficialmente na morte de 111 pessoas, uma das mais graves violações de direitos humanos da história recente do país.
O massacre ocorreu apenas três anos após a redemocratização, evidenciando os limites concretos dos direitos e garantias conquistados no período pós-ditadura, sobretudo para a população negra, pobre e periférica. A ação foi fruto de uma decisão política, autorizada pelo então governador Luiz Antônio Fleury Filho e executada sob o comando do Coronel Ubiratan Guimarães, revelando a permanência de práticas autoritárias nas instituições democráticas e a seletividade racial e social do sistema penal brasileiro.
O coletivo, além de participar de debates públicos e de articulações com pesquisadores, movimentos sociais e familiares das vítimas, realiza palestras, encontros formativos e roteiros de memória no território do atual Parque da Juventude, onde estavam os pavilhões da antiga penitenciária. Durante os percursos, os educadores reconstroem a história do complexo, narram o massacre, identificam os edifícios demolidos e destacam vestígios materiais e simbólicos do sistema prisional. A partir dessas ações, propõe uma leitura crítica dos processos de apagamento, silenciamento e disputa de narrativas sobre a memória carcerária, contrapondo-se às versões oficiais e ressaltando a permanência do encarceramento no território, inclusive com o funcionamento do presídio feminino nas proximidades.
A ação dos educadores reafirma que lembrar o Carandiru não é apenas narrar o passado, é interrogar o presente, nomear responsabilidades e disputar os sentidos da história, para que tragédias como a de 1992 não sejam naturalizadas nem esquecidas.
Serviço
Local: Instituto Çarê (R. Dr. Avelino Chaves, 138 – Vila Leopoldina, São Paulo – SP, 05318-040)
Data: 17 de janeiro de 2026
Programação para o dia de abertura:
13h – apresentação do grupo musical LibertArt Trançar Feminismos, Poesia & Coragem.
15h às 17h – mesa: Do Carandiru ao Brasil: encarceramento, massacres e violações de direitos humanos. Participantes:
Julia Eid – mediadora;
Maurício Monteiro (Prisioneiro 84.901) e Helen Baum;
Cristina Lopes – diretora executiva do CEDRA, Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais;
Igo Ngo – integrante do grupo de rap “Resistência do Gueto” e ativista;
Railda Alves – coordenadora da Associação de familiares e amigos/as de presos/as (Amparar).
17h às 20h30 – programação musical de Hip Hop com Mandrakaa, Comunidade Carcerária e Igo Ngo.
Quando
Entrada
A programação do Instituto Çarê é gratuita e aberta ao público.
Onde
Instituto ÇarêRua Doutor Avelino Chaves, 138
Vila Leopoldina, São Paulo, SP
CEP 05318-040
Rua Doutor Avelino Chaves, 138
Vila Leopoldina, São Paulo, SP
CEP 05318-040