Ounje
Sobre
OUNJE – Ocupação Artística sobre Comida, Ancestralidade e Gestão Feminina Negra
Concebida e produzida pela Capulanas Cia de Arte Negra, a exposição constitui uma
experiência que propõe ocupar o Instituto Çarê como território de memória, afeto,
organização e luta, tendo a comida como eixo central de criação e reflexão histórica.
Ounje é uma palavra iorubá que se refere ao ato de comer junto e está em diálogo com
práticas como o Ajeum no terreiro — momento sagrado de partilha alimentar que
fortalece os laços comunitários e a espiritualidade.
A ocupação parte da compreensão da ‘casa do preparo’ como um dos principais
centros de gestão da vida nas comunidades negras — espaço onde mulheres
historicamente administraram recursos, alimentaram coletivos, transmitiram
saberes e sustentaram redes de cuidado, sobrevivência e resistência cultural; lugar
também de articulação, estratégia e enfrentamento.
Também resgata experiências afro-brasileiras de organização feminina negra, como
a Sociedade Brinco de Princesa, formada por empregadas domésticas que, por meio da
realização de jantares, financiavam e fortaleciam a imprensa negra no pós-abolição
— transformando a mesa em trincheira política.
Atravessando o Atlântico, a instalação convoca a memória da Guerra das Mulheres na
Nigéria, em 1929, quando mais de 10 mil mulheres igbo se mobilizaram contra o
sistema colonial britânico, insurgindo-se contra a taxação sobre a produção e
comercialização de alimentos. Ao defender o alimento, defendiam também sua
autonomia econômica e política.
No Brasil ou na Nigéria, essas memórias ecoam no presente. Mulheres negras
continuam sendo responsáveis pela gestão do alimento, do tempo e da economia
comunitária — e seguem transformando pratos aparentemente simples em
ferramentas de manutenção da vida, identidade e resistência.
Programa de Residência Artística Çarê | IEB-USP
Desde 2024, o Çarê e o IEB-USP, por meio do Programa de Residência Artística,
recebem coletivos que desenvolvem pesquisas e práticas artísticas a partir de acervos
documentais, compreendidos como territórios de disputa política e epistemológica. A
iniciativa promove a democratização do acesso às instituições culturais e afirma
narrativas críticas sobre cultura e memória.
CAPULANAS CIA DE ARTE NEGRA
Fundada em 2007, na zona sul de São Paulo, a Capulanas Cia de Arte Negra
desenvolve uma pesquisa continuada comprometida com a formação identitária da
mulher negra periférica — suas vidas concretas, seus dilemas cotidianos, suas
estratégias de sobrevivência e seus projetos de futuro. Para o coletivo, a cena não é
apenas representação: é espaço de reorganização simbólica, elaboração de memória e
produção de pertencimento.
Partindo do território e da experiência vivida, o trabalho das artistas-pesquisadoras
Adriana Paixão, Débora Marçal, Flávia Rosa e Olaegbé Jéssica Nascimento investiga as
engrenagens do racismo estrutural desde dentro — do cotidiano, do afeto, da casa e
das relações comunitárias. Suas criações articulam pesquisa histórica, escuta e
fabulação para tensionar imagens cristalizadas sobre o corpo negro feminino e
deslocar narrativas que historicamente o aprisionaram.
Ao longo de sua trajetória, a Capulanas Cia de Arte Negra consolidou-se como
referência para coletivos negros que articulam arte, território e identidade. Sua
permanência na periferia e sua atuação continuada demonstram que é possível
produzir pesquisa estética consistente fora dos centros hegemônicos, sem abrir mão
do compromisso político e comunitário.
Quando
Entrada
A programação do Instituto Çarê é gratuita e aberta ao público.
Onde
Instituto ÇarêRua Doutor Avelino Chaves, 138
Vila Leopoldina, São Paulo, SP
CEP 05318-040
Rua Doutor Avelino Chaves, 138
Vila Leopoldina, São Paulo, SP
CEP 05318-040